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Conectados e Sozinhos: Como a Terapia Ajuda a Amar em Tempos de Superficialidade

  • Foto do escritor: Icaro M Rizieri
    Icaro M Rizieri
  • 7 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Hoje, as relações humanas são mediadas por tecnologias de comunicação instantânea: redes sociais, aplicativos de namoro, grupos virtuais e fóruns de interesse. Essa facilidade de contato criou uma sensação de acesso ilimitado ao outro, permitindo escolher, aproximar e descartar vínculos com um simples toque na tela. No entanto, a mesma fluidez que conecta também fragiliza: vínculos são criados com rapidez, mas se dissolvem com a mesma facilidade. A proximidade virtual substitui, muitas vezes, o envolvimento real, afetando o sentido de compromisso, empatia e permanência.


O fenômeno dos “relacionamentos líquidos”, conceito desenvolvido pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, é uma das expressões mais marcantes da contemporaneidade. Ele descreve uma transformação profunda na forma como as pessoas se relacionam, resultado direto das mudanças tecnológicas, culturais e econômicas que moldam a vida moderna.


Nos relacionamentos líquidos, o comprometimento passa a ser percebido como risco, e não como conquista. A ideia de estabilidade emocional é substituída por uma busca constante por experiências novas, prazerosas e sem exigências. A consequência é uma geração que experimenta intensa e contraditória de solidão e ciúmes em meio à hiperconectividade: fala-se com muitos, mas se é ouvido por poucos. As relações tornam-se transações afetivas rápidas, onde o outro é consumido enquanto gera prazer, atenção ou validação e descartado quando deixa de cumprir esse papel.


Essa dinâmica tem efeitos diretos sobre a autoestima e a identidade. O valor pessoal passa a depender da aceitação virtual: curtidas, mensagens, presença online e reciprocidade imediata. A ausência de resposta, o "visto" sem retorno ou o desaparecimento repentino (ghosting) provocam sensações de rejeição e insuficiência. Muitos indivíduos passam, então, a ajustar seus comportamentos e até suas personalidades para se manterem desejáveis aos olhos dos outros, um processo que fragiliza o autoconhecimento e o senso de autenticidade.


Bauman propõe que as relações humanas modernas funcionam sob a mesma lógica do consumo: busca-se o prazer imediato e o descarte rápido do que deixa de satisfazer.O outro é visto não como sujeito, mas como objeto de experiência emocional. Assim, a empatia dá lugar à performance, e o amor (antes um ato de doação e construção) torna-se um produto que precisa constantemente ser “renovado” para continuar existindo.


Em suma, vivemos uma era em que o ser humano se vê cercado por milhares de possibilidades de contato, mas carece de espaço emocional para se vincular verdadeiramente.Os relacionamentos líquidos são, ao mesmo tempo, um reflexo e uma causa de nossa dificuldade contemporânea de lidar com o outro e conosco mesmos. Talvez o desafio atual não seja se conectar mais, mas se conectar melhor.


Antes de aprender a se conectar melhor com os outros, é preciso reaprender a se conectar consigo mesmo. A terapia oferece um espaço de escuta livre de julgamentos, onde o indivíduo pode reconhecer suas emoções, limites e necessidades afetivas, entender os padrões de relacionamento que repete e diferenciar o que é desejo genuíno do que é busca por aprovação.


Muitas vezes, as relações líquidas surgem porque as pessoas se relacionam a partir da carência, tentando encontrar no outro o que não encontram em si. O processo terapêutico ajuda o sujeito a fortalecer a autoestima e o senso de identidade, tornando os vínculos mais conscientes e menos dependentes.

 

Na terapia, o indivíduo pode identificar padrões inconscientes de apego, que influenciam sua forma de se relacionar, como o medo do abandono, a necessidade de controle ou a dificuldade de confiar. Esses padrões, muitas vezes originados na infância, se repetem nas relações amorosas, familiares e sociais. Através da análise desses comportamentos, a terapia possibilita reconhecer e ressignificar tais dinâmicas, permitindo que a pessoa se relacione com mais liberdade emocional.


Um dos maiores efeitos da terapia é ampliar a capacidade de escutar a si e ao outro.Ao ser escutado genuinamente pelo terapeuta, o paciente aprende o valor de uma escuta empática, que ele pode reproduzir em suas relações. Assim, a terapia se torna um “modelo de vínculo seguro”: o terapeuta oferece uma relação consistente e respeitosa que ajuda o paciente a internalizar novas formas de estar com o outro.


Enquanto as relações líquidas são marcadas pela pressa e superficialidade, a terapia promove o oposto: a experiência da constância e do tempo. O vínculo terapêutico se desenvolve de forma gradual, o que ensina que a intimidade verdadeira se constrói com paciência, vulnerabilidade e confiança.Isso reflete diretamente nas relações externas, o paciente passa a valorizar mais a qualidade dos laços do que a quantidade de conexões.


Em outras palavras, a terapia ajuda o sujeito a habitar sua própria presença, tornando possível um encontro verdadeiro com o outro. Conectar-se melhor significa poder sustentar o laço e isso exige autoconhecimento, empatia e coragem de ser visto como realmente se é.



Por Icaro Rizieri - Psicólogo.


 
 
 

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