A dor que se tornou Diagnóstico: Como a Terapia Resgata o Sentido do Sofrimento Humano
- Icaro M Rizieri
- 7 de out. de 2025
- 2 min de leitura

Vivemos um tempo em que o sofrimento psíquico é frequentemente traduzido em termos médicos. Sentimentos como tristeza, ansiedade, desânimo, dificuldade de concentração e até traços de personalidade são rapidamente associados a diagnósticos psiquiátricos. Isso se deve, em parte, ao avanço das ciências da mente, mas também à cultura da rapidez e da performance, que busca explicações imediatas e soluções rápidas, muitas vezes na forma de medicação. A consequência é uma medicalização do mal-estar humano, onde o sofrimento, em vez de ser escutado e compreendido, é silenciado por fármacos ou por rótulos diagnósticos simplificados.
A expressão “epidemia psiquiátrica” tem sido usada para descrever um fenômeno contemporâneo preocupante: o crescimento expressivo de diagnósticos de transtornos mentais, o uso indiscriminado de medicamentos psicotrópicos e, principalmente, a banalização da linguagem da psicopatologia no cotidiano.
Com o acesso facilitado à informação (e à desinformação), especialmente nas redes sociais, é comum ver pessoas se autodiagnosticando com TDAH, ansiedade generalizada, depressão, bipolaridade ou outros transtornos, baseando-se em vídeos curtos ou testes online, reduz experiências complexas a etiquetas superficiais, gerando dependência de medicamentos sem acompanhamento adequado e podendo mascarar questões sociais, relacionais ou existenciais que exigem outro tipo de cuidado.
Outro aspecto simbólico importante é o uso desses rótulos como justificativas para falhas ou comportamentos. Expressões como “sou assim porque tenho ansiedade”, “não consigo porque tenho TDAH”, ou “me isolo porque sou depressivo” revelam um modo de naturalizar o sofrimento, retirando a possibilidade de transformação subjetiva. Isso não significa negar os transtornos mentais reais, eles existem e devem ser tratados com seriedade —, mas indica um uso defensivo do diagnóstico, como forma de evitar o confronto com a responsabilidade pessoal e os desafios da vida.
A chamada “epidemia psiquiátrica” também é reflexo de um contexto social que valoriza a produtividade, o desempenho e a felicidade constante. A impossibilidade de sustentar frustrações ou incertezas faz com que o sofrimento seja visto como patologia.O que antes era considerado parte natural da experiência humana, (o tédio, a tristeza, o luto, a solidão) hoje é tratado como algo a ser medicado.
Errar é humano, e reconhecer os próprios erros é necessário e essencial para o aperfeiçoamento pessoal. Contudo, essa jornada acaba se tornando secundária em meio a uma rotina sobrecarregada por metas e exigências impostas pelo mundo. O que resta, muitas vezes, é um conjunto de sintomas que parecem surgir sem causa aparente.
A terapia tem a função de oferecer uma pausa nesse cronômetro invisível que nos obriga a ignorar nossas necessidades. Ela nos coloca na posição de observadores de nós mesmos, permitindo refletir sobre aquilo que não conseguimos enxergar no cotidiano. Trata-se de um espaço seguro, livre de julgamentos, dedicado a questionar o que nos move e a promover um encontro mais autêntico com quem realmente somos.
Em resumo, não vivemos exatamente uma epidemia de doenças mentais, mas sim uma epidemia de diagnósticos e medicalização, onde o humano tenta se ajustar a um mundo que não admite falhar. E talvez o maior desafio contemporâneo da saúde mental seja justamente este: resgatar o sentido do sofrimento, devolvendo à dor o seu valor simbólico e transformador, sem reduzi-la a um desequilíbrio químico.
Por Icaro Rizieri - Psicólogo



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