Entre a Pressa e o Propósito: Terapia Como Resistência à Vida Automática
- Icaro M Rizieri
- 7 de out. de 2025
- 4 min de leitura

O sofrimento humano sempre acompanhou a história, mas cada época o expressa de maneira diferente. Nos dias de hoje, o que domina é um vazio de sentido, uma sensação de desencaixe entre o indivíduo e o mundo, intensificada por um tempo que se move rápido demais para que o ser humano possa acompanhá-lo.
A terapia é, portanto, um espaço de resistência ao ritmo desumanizador da modernidade.Ela convida o sujeito a desacelerar, refletir e resgatar a autoria da própria vida.Mais do que oferecer respostas, a terapia ensina a suportar as perguntas e a encontrar nelas o caminho para um sentido mais autêntico e humano de existir. A terapia não devolve o sentido perdido, ela ajuda o indivíduo a criá-lo. E talvez, num mundo onde tudo parece pronto e imediato, a criação de sentido seja o ato mais profundo de liberdade.
Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade em encontrar significado. A tecnologia ampliou nossa capacidade de aprender, comunicar e criar, mas também gerou um excesso de estímulos e comparações. O ser humano contemporâneo é bombardeado por informações, mas carece de tempo para refletir sobre elas. O resultado é uma espécie de superfície cognitiva: sabemos muito, mas compreendemos pouco; conectamo-nos com todos, mas raramente com nós mesmos.
O avanço tecnológico trouxe benefícios inegáveis, mas também deslocou o ritmo natural da vida humana, promessa de eficiência e produtividade transformou o tempo em mercadoria, o ócio em culpa e a pausa em fracasso. A vida passou a ser medida pelo desempenho, não pelo sentido.Assim, quanto mais rápido o mundo anda, mais o sujeito sente que ficou para trás. E, quando o ritmo do mundo supera o ritmo da alma, nasce o sofrimento existencial, uma angústia silenciosa de não saber mais o porquê de estar aqui.
Questões como “Qual é o meu propósito?” ou “Por que viver?” sempre existiram, mas hoje elas se tornaram coletivas e urgentes. As antigas referências como religião, comunidade, família, ideais políticos, perderam força diante do individualismo e da fluidez dos valores modernos.O sujeito, então, precisa inventar sozinho o próprio sentido, o que é libertador, mas também angustiante. Essa liberdade radical, como apontou o filósofo francês Sartre, é ao mesmo tempo nossa maior conquista e nossa maior condenação.
A tecnologia em si não é vilã. Ela é uma extensão da inteligência humana, uma ferramenta que pode tanto aproximar quanto alienar. Quando usada com consciência, pode ser um meio de ampliação do conhecimento e da criatividade. Mas, quando ocupa o espaço da reflexão e do silêncio, necessários à elaboração do sentido, ela se torna uma distração do vazio. Em vez de olhar para dentro, o sujeito se perde no brilho das telas, em um consumo incessante de estímulos que o mantêm ocupado, mas não preenchido.
Diante desse cenário, a saída não está em rejeitar o progresso, mas em reaprender a habitar o tempo. O ser humano precisa reconquistar o espaço da experiência, viver com presença, e não apenas com desempenho. Encontrar sentido não é descobrir algo fora de si, mas construí-lo na relação com o mundo, com o outro e consigo mesmo. É por meio de vínculos, da criação e da reflexão que o vazio existencial pode se transformar em potência criadora.
Em um mundo acelerado, a terapia oferece algo raro: tempo e silêncio.Dentro do consultório, o sujeito pode finalmente parar e se escutar, livre das pressões de produtividade e das distrações tecnológicas. Esse espaço de pausa é fundamental para que ele reconheça suas próprias necessidades, sentimentos e valores, passos iniciais para construir sentido.
Vivemos um tempo em que o sofrimento não nasce da falta de recursos, mas da falta de propósito onde o ser humano moderno, cercado por informação, se vê cada vez mais perdido em perguntas sem resposta, porque confundiu saber com compreender e conexão com presença. A cura possível não está em desacelerar o mundo, mas em reaprender a caminhar no próprio ritmo, resgatando o sentido de existir em meio à velocidade da vida.
Como dizia o psicólogo Viktor Frankl, “quem tem um porquê, enfrenta qualquer como”.O desafio contemporâneo é reencontrar esse “porquê” e talvez essa seja a mais profunda tarefa humana do nosso tempo.
A terapia tem um papel essencial no enfrentamento dessa crise de sentido que caracteriza o sofrimento contemporâneo. Mais do que tratar sintomas, ela se propõe a acompanhar o ser humano na tarefa de reencontrar significado em sua própria existência, ajudando-o a compreender o que o faz viver e não apenas sobreviver.
O sofrimento existencial costuma ser deslegitimado: quem questiona o sentido da vida é visto como fraco, ingrato ou dramático. A terapia rompe esse tabu ao validar a dor como parte legítima da experiência humana. O psicoterapeuta ajuda o paciente a nomear o que sente e a compreender que o vazio, a dúvida e a angústia são também convites para o autoconhecimento e a transformação.
A terapia se torna, assim, um processo de reconstrução do propósito, conectando o indivíduo com o que o move internamente. A perda de sentido geralmente vem acompanhada de isolamento, o indivíduo se sente desconectado das pessoas, das causas e da própria história.A terapia, ao favorecer a escuta empática e o fortalecimento do vínculo, ensina o valor da presença e da relação autêntica. A partir do encontro terapêutico, o paciente aprende a se relacionar de forma mais verdadeira e significativa com o mundo à sua volta.
Em vez de eliminar o sofrimento, a terapia ajuda o indivíduo a dar um novo significado a ele.O vazio existencial, quando reconhecido e acolhido, pode se tornar um ponto de partida para mudanças reais: trocar o automático pelo consciente, o superficial pelo profundo.Assim, o sofrimento deixa de ser uma ameaça e passa a ser um instrumento de autoconstrução.
Por Icaro Rizieri - Psicólogo.



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